Flor da Transgeneridade
- Marcela Galindo Goularte
- 7 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 15 de dez. de 2025
Ideologia de Gênero e a Transgeneridade

Minha proposta aqui, é trazer a luz o fato que a ideologia de gênero existe, como a identificamos, como a extrema direita transfere responsabilidades e qual o papel existencial da transgeneridade nesse contexto.
Considerando que ideologia é um conjunto de crenças, valores e ideias que emolduram uma visão de mundo e influenciam pensamentos, ações individuais e sociais, políticas e como grupos ou indivíduos interpretam o que é real e o que é realidade, observemos o comportamento humano de repetição e controle a partir do conceito familiar nuclear, definido pela extrema direita.
Dentro do campo progressista é ponto pacífico que a leitura de papéis de comportamento de gênero pré existem atrelados a genitália do indivíduo. E que essa ideia vem sendo perpetuada para a manutenção de controle social, político e financeiro das populações.
O problema desse conceito, dessa ideia, dessa ideologia é que ela só funciona em um tempo fixo, ela não suporta a evolução social e a independência dos indivíduos.
A manutenção dessa ideologia de gênero ou de comportamento de gênero pré posto, encontrou a décadas seu limite evolutivo.
Em busca de manter, ainda que agonizante a imposição dessa ideologia o então Papa emérito Bento XVI, no ano de 1.997, atuando como Cardeal Jeseph Aloisius Ratzinger, publicava textos como contraofensivas poderosos contra o feminismo que vinha consolidando a décadas a defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.
Em exemplo o trecho de um desses textos:
* "Atualmente se considera a mulher como um ser oprimido; assim que a liberação da mulher serve de centro nuclear para qualquer atividade de liberação tanto política quanto antropológica com o objetivo de liberar o ser humano de sua biologia. Se distingue então o fenômeno biológico da sexualidade de suas formas históricas, às quais se denomina "gender", mas a pretendida revolução contra as formas históricas da sexualidade culmina em uma revolução contra os pressupostos biológicos. Já não se admite que a "natureza" tenha algo a dizer, é melhor que o homem possa moldar-se ao seu gosto, tem que se libertar de qualquer pressuposto do seu ser: o ser humano tem que fazer a si mesmo segundo o que queira, apenas desse modo será "livre" e libertado. Tudo isso, no fundo, dissimula uma insurreição do homem contra os limites que leva consigo como ser biológico. Se opõe, em seu extremo último, a ser criatura. O ser humano tem que ser seu próprio criador, versão moderna de aquele "serei como deuses": tem que ser como Deus (Ratzinger, 1997: 142).
Esse trecho é importante porque nele podemos identificar claramente o desenho que Ratzinger vinha construindo nesse período. Uma estrutura discursiva distorcida de uma nova adjetivação para a "ideologia de gênero", dando a entender que o filho feio não é seu, eximindo a igreja católica de lidar com uma questão estruturante que vinha ferindo diretamente seu status de controle. Sem capacidade de lidar com a questão, semeia na mente de seus seguidores uma tal “insurgência do humano contra sua própria natureza”, assim transferindo a responsabilidade para uma das frentes progressistas mais proeminentes da época.
Ou seja, a ideologia de gênero existe sim, mas não da forma como extremistas e moralistas assim como Joseph Ratzger (Papa emérito Bento XVI) tentam até hoje ressignificar.
"A ideologia de gênero é a imposição de um comportamento social pré definido, atrelado a genitália identificada no nascimento."
Um outro ponto curioso, é como nesse mesmo trecho podemos identificar claramente o modus operandi discursivo que hoje ainda ouvimos na extrema direita. Que enxerga de forma impositiva toda perspectiva que não se alinhe a sua. Não há a capacidade de considerar o outro discurso como também possível, ou então há essa capacidade da plausibilidade do discurso alheio e de forma consentida e desleal a coloca como impositiva, determinista e excludente em contra ponto a sua.
A transgeneridade, frente a essa disputa retórica sobre ideologia de gênero, transcende a convenção binária de comportamento de gênero. Em sua etimologia, o prefixo "trans" com origem no latim, trás significado a noção de "além de" ou "através de".
Essa ideologia comportamental esta tão inserida em nosso senso de realidade que quase não percebemos a estrutura que a sustenta.
Isso porque ela esta presente principalmente na educação infantil primária e nós ainda a encontramos bem antes que um bebê venha a contemplar a luz do mundo.
Quando decidimos o nome desse bebê, quando escolhemos a cor de suas primeiras roupinhas, quando regulamos o acesso da criança a apenas determinados brinquedos ou mesmo quando censuramos posturas físicas de uma criança usando argumentos como:
- Menino não cruza a perna assim,
- Menina não senta desse jeito,
- Isso não é brincadeira de menina,
- Esse esporte não é pra menino.
Poderíamos elencar inúmeras sujeições que impomos as crianças, e pra limpar nossa consciência disfarçamos isso de educação. Porque quando jogamos luz sobre esse sistema, fica muito clara a covarde doutrinação de comportamento, de como devem ser representados os papéis de gênero na sociedade.
Seus gostos, suas escolhas e seus pensamentos são todos condicionados as perspectivas dos papéis de gênero que se impõem sob estado das coisas. Que é onde esse sistema se esconde e dribla sua capacidade crítica para ser lido como normal, como comum, como se estivesse ali desde a fundação do mundo.
E é assim que esse sistema nos mantém na superfície neutra e apática da real experiência de existência. É a ilusão que não nos deixa decantar a vida pelas consequências das nossas próprias escolhas.
Pessoas transgênero e pessoas que se opõem a esses papéis pré escritos de comportamento de gênero, se expressam através da transposição desse limiar na sua vivência. Identidades de gênero que vão além das categorias binárias de masculino e feminino, sempre buscando autenticidade e congruência com seu verdadeiro eu.
E claro que pela falta de algo melhor, sim nos tendenciamos a performar algumas características da binaridade de gênero que nos foi apresentada.
Mas ainda assim caminhamos transgredindo, porque na construção do futuro usamos as ferramentas do presente, pra juntos construirmos novas tecnologias de convivência, pra juntos evoluirmos nossa capacidade crítica e cognitiva e assim ampliarmos nossa compreensão do vasto mundo que nos cerca.
E é assim, de forma orgânica e inevitável, em meio ao aterro da ideologia de gênero, que brota a singela, pura e imponente, "Flor da Transgeneridade".
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*Referências:
Trecho retirado do trabalho "Ideologia de gênero": notas para a genealogia de um pânico moral contemporâneo" publicado na scielo.br
por: Maximiliano Campana e Richard Miskolci




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